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terça-feira, 29 de julho de 2014

O ensaio

"- Porque isso é o que é o teatro? - disse a garota, rápida, pegando a bola com precisão com a ponta dos dedos e parando para responder à pergunta antes de atirá-la de volta. - O teatro não é a vida real, e não é uma cópia perfeita da vida real. É só um ponto de acesso.
(...)
- O palco não é a vida real. De modo semelhante à estátua, o palco é apenas um local onde as coisas se fazem presentes. Coisas que não aconteceriam normalmente são levadas a acontecer no palco. O palco é um local onde as pessoas podem ter acesso a coisas que normalmente não lhes estariam disponíveis. O palco é um local onde podemos testemunhar coisas de tal modo que se torna desnecessário realizamos essas coisas nós mesmos. Do que é que eu estou falando?
(...)
- Catarse - disse, por fim, de modo cantarolado. - Estou falando de catarse. É uma palavra que todos vocês deveriam conhecer. Catarse é o que faz o seu trabalho valer a pena."
pgs. 47 e 48

Talvez essa seja a resenha mais estranha que eu já tenha feito. Apesar de ter terminado o livro assunto deste texto há uma semana, ainda estou digerindo a história e a escrita da autora. E isso pode ser uma coisa boa.

Sou dessas leitoras que muito raramente abandona leituras. Costumo insistir. Ir na manha, aos poucos, tentar domar aquilo que está me dando tanto trabalho... Só desisto quando não tem mais jeito e o narrador me dá um sono danado, ou coisa do tipo. Dito isso, a experiência de ler O ensaio foi de estranhamento durante boa parte do livro. Mas a narrativa ainda assim é fluída. De uma forma impressionante.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Espananews - Programação Flip 2014

Nesta quarta-feira começa a 12ª Edição da Festa Literária de Paraty. A Flip deste ano ocorre entre os dias 30 de julho e 3 de agosto e a palavra que pode definir a programação desse ano é diversidade. Diferente da maioria das edições, onde a Literatura era o foco principal da Festa, este ano ela divide as atenções com outras áreas.

Apesar do curador da Flip, Paulo Werneck, afirmar que sempre houve na programação um olhar para as outras áreas, um interesse grande por elas, é curioso perceber como o desequilíbrio dos nomes deste ano chama a atenção. Não só pelas atrações, por assim dizer, dessas outras áreas, mas principalmente por ter nomes inexpressivos da literatura nacional como Gregório Duvivier e Fernanda Torres (claro, existe sempre a mídia que os dois carregam consigo, além é claro deles serem colunistas da Folha e autores da Companhia das Letras, sempre forte na Flip), para nem precisar se estender muito. Sobre a falta de representantes nacionais na Festa, há também um texto que correu pela internet do Carlos Andreazza, da editora Record, que dá sua opinião sobre o caso.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

[Post da Colaboradora] Releituras

Por: Barbara Wagner Mastrobuono

Se você pudesse viver sua vida de novo, viveria? Mas teria de ser a sua vida – todos os momentos seriam iguais. Você estaria repetindo os movimentos, mas com a consciência de já ter vivido tudo aquilo. Você sentiria o cheiro da sua sala de aula, as mesas de madeira enfileiradas na frente da lousa, sabendo exatamente o que te espera. Ouviria o crepitar do velcro de seu tênis preto preferido se abrindo e fechando, sentiria na ponta dos dedos o chão áspero da quadra de vôlei do colégio, sabendo exatamente o que iria acontecer a seguir. Sabendo que já passou por lá, seu corpo uma porta aberta, uma via de passagem para todas essas sensações passarem e repassarem ad infinitum, quando você assim o escolher.

Quando eu estava na faculdade, fiz amizade com uma menina que me falou que em toda sua vida releu apenas um livro – se não me engano, era Orgulho e Preconceito. “A vida é muito curta” ela me disse. “Tem muitos livros que eu ainda quero ler para perder tempo lendo livros que já li.” Lembro que na hora fiquei muito impressionada. Achei uma grande otimização de tempo. De fato, pensei (meu exemplar de Harry Potter e o cálice de fogo pesando na mochila, em vias de ser relido pela 17ª vez), a vida é muito curta. Foi a primeira vez que me deparei com uma pessoa que não relia livros. Com o tempo fui descobrindo que na verdade isso não é tão incomum – de fato, fui descobrindo que muitas e muitas pessoas não releem livros. Embora já tenha sentido vontade de otimizar meu tempo de leitura, já tenha me reprimido internamente como a pior das professoras de colégio em relação ao meu vício sujo em releituras, preciso documentar aqui a grande epifania que me atingiu anos atrás. Não vou nem dizer que atingiu: ela foi crescendo, se desenvolvendo lentamente na escuridão do meu ser, como uma planta pegajosa que, sem o benefício do ar, precisou se alimentar apenas com a certeza, até irromper o chão arenoso do meu cérebro e se firmar lá como verdade absoluta: não existem releituras.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sobre Colisores e Partículas subatômicas

A física de partículas é um dos campos mais interessantes e promissores da ciência atual. E o lugar onde a “mágica” acontece é o Cern, mais precisamente no Grande Colisor de Hadrons.

Batendo à Porta do Céu é uma espécie de biografia do Grande Colisor e uma linha do tempo do desenvolvimento da física moderna. Para quem está a par da história da ciência, talvez os primeiros capítulos sejam um pouco “cansativos”, mas para um iniciante, é um texto imperdível. Ela inicia falando um pouco das definições de ciência, dos primórdios da física, da questão ciência versus religião. Física é dessas ciências cujos conceitos na maior parte do tempo parecem ser incompreensíveis, mas a forma didática com que Lisa Randall escreve permite que qualquer um entenda as teorias mais bizarras.

A melhor parte é quando ela fala da construção do Grande Colisor. Para mim, o Colisor é a combinação perfeita entre ciência, tecnologia e, (porque não?) arte. Basta olhar para a capa do livro para ver que o Colisor é uma coisa realmente muito bonita. A concepção, a execução e a utilização do Cern é um épico da ciência moderna. Impressiona o quanto foi necessário de conhecimento técnico e científico e o custo monetário desse equipamento.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

[Post da Colaboradora] A Cozinha das escritoras

Por: Danusa Penna

“Se bem que cozinhar seja opressor, pode também ser uma forma de revelação e criatividade, e a mulher pode experimentar um tipo especial de satisfação ao preparar um bom bolo ou massa folhada.”
Simone de Beauvoir

A autora Stefania Barzini, em A Cozinha das escritoras, nos traz uma análise profunda do relacionamento de 10 grandes autoras com a cozinha. Descobrimos a relação de amor e ódio com a comida de Virginia Woolf, passando pela anorexia da autora de Festa de Babette, Karen Blixen, até o amor profundo pela comida de Gertrude Stein e Alice B. Tolkas.

O livro revela a cozinha pequena e desconfortável da família de Virginia Woolf, a gostosa e familiar de Gertrude Stein, além de Agatha Christie, Collete e, inclusive, Pamela L. Tavares, autora de Mary Poppins.

A autora escreve com maestria o conteúdo sobre como as escritoras sentem, experimentam ou vivem a comida. Autoras essas, que veem a comida como uma forma de confronto, como Simone de Beauvoir, enquanto vivia cm Nelson Algren. Nesse momento, para ela, a alimentação é vista de forma sensual, e quando volta a viver com Sartre, perde sua vivacidade. A comida cosmopolita de Gertrude Stein, passando desde pratos franceses, americanos até a maestria de Alice na manipulação de produtos escassos durante a guerra, e com isso, sempre ganhava um livro de culinária de Natal da sua companheira Gertrude. Ao fim do livro temos receitas relacionadas com cada escritora. Stefania diz que foi além do óbvio, receitas tiradas dos livros, tentou ver os sabores que cada uma preferiria.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Tudo o que sou

"Seu livro abre em minhas mãos neste trecho: 'A maioria das pessoas não tem imaginação. Se pudessem imaginar o sofrimento alheio, não fariam os outros sofrer tanto'.
Era nisso que todos nós acreditávamos. Era nisso que ele acreditava, imagino, até não conseguir mais fazê-lo.
Imaginar a vida de outra pessoa é um ato de compaixão tão sagrado quanto qualquer outro. Nós redigíamos os panfletos, mimeografávamos a verdade. Contávamos as história em papel de embrulhar manteiga, em caixas de charuto, enviávamos isso clandestinamente para a Alemanha. Arriscamos nossa vida para ajudar nossos compatriotas - da Alemanha e de Londres - a imaginar. Eles não imaginaram. Mas Toller, por mais notável que fosse, estava errado. Não é que as pessoas não tinham imaginação. A questão é que elas pararam de usá-la. Porque uma vez que você imaginou tal sofrimento, como é capaz de ainda assim não fazer nada?"
pg 409

Quando Hitler chegou ao cargo de chanceler alemão, em 1933, uma onda de perseguição foi iniciada. Ainda não era o famigerado holocausto, mas já era a raiz do que aconteceria anos depois, já com campos de trabalhos forçados e execuções. Os alvos eram opositores políticos, membros de partidos comunistas e intelectuais. Nesse período, muitos foram expatriados, outros tantos fugiram antes que a polícia do partido nacional socialista os prendessem.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

[Leituras Compartilhadas] 1 ano!

Por: Rafael Kalebe
Há um ano começamos um dos projetos mais gratificantes d'O Espanador: o [Leituras Compartilhada]. Nem nos meus melhores sonhos eu imaginava que a experiência do Clube de Leitura fosse ser tão especial.

Cada uma das leituras consegue trazer algo novo, um pensamento, um argumento, e esse exercício foi o que mais aprendi. A leitura é uma coisa pessoal e que pode mudar pra cada pessoa. Ainda que esse seja o normal, o Clube de Leitura permite compartilhar as impressões e, mais do que isso, expande muito mais a experiência da leitura. E como se isso não fosse o suficiente, ainda conhecemos pessoas que tornaram isso tudo ainda melhor.

Como este mês fizemos uma parada estratégica, já convidamos todos os leitores para o encontro de agosto, que promete ser incrível:



sexta-feira, 18 de julho de 2014

[TIROLEITE] O Bom Brasileiro

Por: Bruno Leite
Se outrora eu afirmei que Philip Roth era "como se fosse um tio mais velho, sábio e solitário, sempre a espreita e que sempre vai estender a mão", agora falo de se extremo oposto: do tio folgazão, aquele que saiu de casa pra correr o mundo e contar como era do lado de lá, aquele que descobriu o sentido da vida na simplicidade, no humor quase sempre cínico, no calor dos tristes trópicos. Falo dele: João Ubaldo Ribeiro.

João surgiu em minha trajetória literária em meados de 2005 quando li A Casa dos Budas Ditosos. Que achado! Me lembro de me sentir muito feliz por ter tão finalmente ter encontrado alguém debochado com a forma e as normas, com seus toques de gênio. E não me refiro apenas a potência sexual da narrativa que é mais que evidente, a graça dele reside no primeiro parágrafo do livro, lá na epígrafe que diz assim:

"No final do ano passado, depois que alguns jornais noticiaram que a editora responsável por esta publicação me havia encomendado um texto sobre o pecado da luxúria, os originais deste livro e o recorte da nota de um dos jornais em questão foram entregues por um desconhecido ao porteiro do edifício onde trabalho, acompanhados de um bilhete assinado pelas iniciais CLB. Informava que se trata de um relato verídico, no qual apenas a maior parte dos nomes das pessoas citadas foi mudada, e que sua autora é uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro. Autorizava que os publicasse como obra minha, embora preferisse que eu lhes revelasse a verdadeira origem. “Não por vaidade,”, escreveu ela, “pois até as iniciais abaixo podem ser falsas. Mas porque é irresistível deixar as pessoas sem saber no que acreditar.” Assim foi feito, e com justa razão, como o leitor haverá de constatar, após o exame deste depoimento espantoso."

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Fundo do céu, O – Rodrigo Fresán

fundo do céu
"Só resta eu, aqui, debaixo do céu.

Sob a diferença desse céu que poetas e religiosos insistem em pluralizar (os céus, dizem e recitam, românticos, perdidos), mas que, na verdade, é um só, indivisível.
Esse céu que está no céu e que cresce a partir do horizonte.
Esse lugar ao qual, quando éramos jovens em chamas, nos dirigíamos com a tranquilidade de quem sabia ser inalcançável, felizes porque tínhamos todo o tempo do mundo, sem suspeitar que – agora eu sei, agora eu sinto – é o horizonte que avança, sem pressa e sem parar, em nossa direção. O horizonte que vem desde o horizonte até finalmente nos alcançar e penetrar em nós, e, de repente, nos tornarmos o horizonte.
Na noite anterior, enquanto começava a escrever isso – quando? – vi na televisão uma entrevista com um escritor de livros infantis. Best-sellers sobre um garoto que viaja pelo tempo em sua bicicleta em busca da mãe. Ou algo assim. O homem respondia com o rosto oculto em sombras, porque afirmava que não gostaria que conhecessem seu rosto ou o identificassem pela rua. O que importava não era ele, e sim as histórias, insistia. E, em certo momento, falou algo que nunca esquecerei: “Escrevemos para vingar da realidade”.
Essas palavras me soaram afiadas, verdadeiras e até incontestáveis.
Mas não tenho certeza de que esse foi meu caso.
Comigo, a questão tinha mais a ver com o fato de escrever primeiro para só então poder me sentir mais ou menos real.
Mas acho que essa foi uma opção melhor.
Também não acho que que exista uma melhor que a outra.
Cada um -  Ezra, eu, Zack, qualquer outro – escreve por motivos muitos diferentes, unidos por um único impulso: não poderíamos parar de escrever e, quando não escrevemos, sentimos que estamos, sim, escrevendo, ou que deveríamos fazer isso.
Como um computador, nos confins do universo, cantando suas últimas palavras, que foram as suas primeiras palavras.
Como um androide que se desliga enquanto monologa sob a chuva acerca de tudo o que viu e ninguém verá.
(…)
Assim como eles se foram, em um passado futuro, eu gostaria de ir também.
Não é possível, é claro."
Pág 173-175

Ao terminar o recém lançado livro de Fresán, percebi que havia muito tempo que não navega tão fundo na fc/fantasia quanto nesse primeiro semestre de 2014, basta ver meus últimos posts e notar que há uma certa predisposição ao fantástico, seja em sua forma mais sólida, seja na alegórica. Há quem ache que o fantástico se resume a nomes esquisitos, universos mágicos e non-sense. Em alguns casos pode até ser isso, mas esse são os ruins. Quando vemos as intrigas políticas de um Martin, as alegorias humanas de Dick, a recém resenhada trama imaginativa de Xerxenesky, ou o surreal em estado bruto de Rubião, vemos que há muitas possibilidades dentro do fantástico e por mais que ficção científica e poesia sejam um casal improvável de se avistar na pista das letras, Fresán conseguiu o milagre de faze-los ficar junto e O fundo do céu é seu resultado. Não preciso dizer que é diferente de qualquer um dos citados acima.

terça-feira, 15 de julho de 2014

As Leis da Fronteira - Javier Cercas

"Na tarde que eu conheci o Zarco cheguei ao fliperama logo depois que o seu Tomàs abriu as portas, e comecei a jogar na minha máquina de pinball preferida, que era a do Rocky Balboa. Uma boa máquina: cinco bolas, bola extra depois de alguns poucos pontos e no final bonus points que ajudavam a gente a jogar a partida com facilidade. Fiquei jogando por um tempo no local vazio, mas logo um grupo de garotos entrou e foi até o autorama. Pouco depois entrou um casal. Eram um garoto e um garota que aparentavam ter mais de dezesseis anos e menos de dezenove anos, e minha primeira impressão ao vê-los foi que um vago ar de família os unia, mas pricipalemnete que eram dois charnegos da pesada do subúrbio, talvez dos quinquis. Seu Tomàs farejou a amaeaça quando eles passaram diante da vidraça. Ei, vocês aí, chamou, abrindo a porta do guichê. Aonde vão? Os dois pararam bruscamente. O que foi, chefe?, perguntou o garoto, levantando as mãos como quem se oferece para ser revistado; não estava sorrindo, mas parecia achar a situação divertida. Disse: A gente só quer jogar uma partida. Tudo bem? Seu Tomàs mediu-os de cima abaixo com um olhar desconfiado, e ao terminar o exame disse alguma coisa, alguma coisa que na hora eu não entendi; depois entendi: Não quero problemas. Quem causar problemas vai pra rua. Está claro? Claríssimo, disse o garoto, fazendo um gesto conciliador e baixando as mãos. Com a gente não se preocupe, chefe. Seu Tomàs pareceu mais ou menos satisfeito com a resposta, entrou outra vez no guichê e deve ter mergulhado de novo na revistinha de palavras cruzadas enquanto os dois entravam no fliperama.
-Eram eles.
-Sim: o rapaz era o Zarco; a garota era a Tere.
-A Tere era namorada do Zarco?
-Boa pergunta: se eu tivesse sabido a resposta a tempo, teria evitado muitos problemas; (...) e meu primeiro impulso foi deixar pra lá a máquina do Rocky Balboa e sair.
Fiquei."
Página 22-3

As 430 páginas do mais novo romance do espanhol Javier Cercas passam tão fluídas e tão rápidas que é até difícil de acreditar. As Leis da fronteira é um daqueles raros romances contemporâneos que parecem se preocupar em contar uma boa história e o faz de uma forma arrebatadora.

Já havia lido outro livro do autor, Velocidade da Luz e havia me impressionado como ele consegue 'prender' o leitor com um texto ágil e muito envolvente. Agora em seu novo livro acredito que ele consegue ampliar ainda mais essas sensações com uma história que parece ser banal, mas que deixa você pensando nela mesmo quando você deixa o livro de lado.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O livro proibido da CBF

Em tempos de comemoração pela emocionante vitória da Alemanha sobre a Argentina (já aviso que diferente de boa parte das pessoas nada tenho contra nossos Hermanos), na Final da Copa mais legal dos últimos tempos, aqui n'O Espanador ainda vamos falar de futebol. Dessa vez, de algo um pouco mais sério. Já é do conhecimento de todos a minha paixão por futebol (que boa parte do tempo passa longe da diversão da Copa e só quem acompanha o Brasileirão sabe do que eu estou falando). E até mesmo por isso vou falar de um livro importante mas que é proibido. Mas calma, antes disso vem uma outra coisa.

Para quem acompanhou a Copa 2014 com toda a certeza ficou chocado com a derrota/humilhação (7x1) que foi imposta pela Alemanha à seleção Brasileira. Claro, 7x1 é difícil de esquecer. Mas as derrotas fazem parte do jogo. Eu como Palmeirense achei que já tivesse visto de tudo no futebol e esse jogo veio pra provar que eu estava enganado. Não me interessa falar da derrota, isso posso deixar para especialistas da ESPN, do Trivela e do Impedimento. Mas por que esse jogo foi tão significativo para o futebol quanto o seu resultado?

sexta-feira, 11 de julho de 2014

[Drops] + Read along: S

Ano passado nosso amigo Menezes foi mais uma vez à Feira de Frankfurt (tem um texto bem bacana sobre isso aqui). Depois dessas viagens, os nossos encontros normalmente são povoados de "Você não sabe o que eles vão lançar!" E uma dessas novidades sensacionais era um livro totalmente amalucado, com autoria do J.J Abrams (e Doug Dorst), o S.

O livro, além de ter uma edição ultra caprichada, é intrigante. Trata-se de um volume de The ship of Theseus "esquecido" numa biblioteca. As páginas estão todas comentadas, um diálogo entre um homem e uma mulher. Mas não uma conversa amena, aleatória. Jennifer e Eric querem desvendar o segredo do autor V.M. Straka, um homem misterioso, recluso.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

F. – Antônio Xerxenesky


"Havia muito mais o que escrever sobre o filme, mas Michel recomendou que eu fosse sucinta. Cinéfilos possuem um a boa memória visual, eu não precisaria registrar todas as minhas impressões. Além do mais, é sempre bom esquecer certos detalhes, pois rever um grande filme sempre nos faz notar coisas que não percebemos na primeira vez. Olhei para aquela anotação sobre Teorema. Tinha sido minha primeira. Mas nela eu não tinha respondido a minha pergunta, a questão que reapareceria em minha mente recitada pela voz de Orson Wells, quando eu olhava um prédio de arquitetura diferente, quando eu visitava uma igreja, quando eu ouvia uma música, quando eu lia um poema, quando eu assistia a um filme. Pensei pensei em Teorema e lancei a caderneta: “Arte, sim”

A estrutura rígida micheliana logo foi se desintegrando e cedendo espaço para a curta fórmula wellesiana. Fui ao Louvre pela primeira vez (“é ofensivo pensar que você vai voltar aos Estados Unidos sem ter ido ao Louvre”, disse Antoine), gastei umas três horas percorrendo aqueles corredores que apreciam ter mais história que o meu país, observei alguns orientais se estapeando para fotografar a Mona Lisa, e registrei na caderneta: “Louvre. Arte. Mas que saco.” Subi ao apartamento de Antoine – acho que pela quarta vez – e foi a melhor de todas. Anotei a data em minha caderneta, coloquei uma estrelinha do lado e senti necessidade de acrescentar: “Arte, talvez, mas provavelmente não.” (…) A Noite dos Mortos Vivos, de George Romero. Arte. A Aventura, de Antonioni. Dormi – e nunca durmo em filmes. Não Arte. Como era verde meu Vale. Eca. Não Arte (…)The Hurting, do Tears for Fears. Arte. Pequena casa azul que encontrei no quatrième arrondissement, próximo ao Sena. Arte. O Quarto verde. Não arte. E chato, muito chato.Cléo das 5 às 7. Arte.
pág. 95-96

A enigmática capa em neon com a concisão de um título que a toma por inteira deixa o leitor intrigado com seu conteúdo (isso é bom). A orelha que fala de sensações, já dá uma interpretação romântica do conteúdo e não fala nada sobre o enredo, já te deixa com o pé atrás, pois parece ser um romance 8 ou 80 (isso é mal). A citação ao verso de "Giorgio by Moroder" do último disco do Daft Punk, é uma elegante presença da modernidade nesse romance que se passa nos anos 80, sem contar que a melhor música daquele Cd e isso é bom também. Mas pedir que o leitor veja os filmes de Orson Wells para entender as citações, ou pelo menos não se importe com fato de ter revelações sobre os filmes, inclusive os finais, pode ser considerado ruim, pois nenhuma obra deve usar outra como base. E todos esses pensamentos vem ao mesmo tempo antes de ler a primeira frase do romance. Isso é um teaser.

Na verdade, se você obedecer a ordem natural da cinefília e tiver como base Cidadão Kane já poderá ler com tranquilidade a obra desse jovem brasileiro que é munido de uma imaginação singular nessa geração. Fato é que você tem que ser um pouco cinéfilo, falo que nenhuma obra deveria ser baseada em outra a princípio, mas existem outras que são homenagens a uma determinada coisa e obviamente você apreciará mais se tiver algum tipo de relação com a coisa, no caso, o cinema em primeira instância. Isso porque muitas das referências utilizadas no romance, e esse é um de seus charmes, é teorizar nas entrelinhas considerações sobre a Sétima Arte. Assim, quando você a tem no seu leito conjugal e vê a narradora exaltando Teorema, e dormindo em A Aventura, a vontade é entrar o romance e parlar “Antonioni é mestre, bambina!”com direito a todo gestual característico. Felizmente isso são easter eggs que nós fazem sorrir, mas o romance não se prende nisso, pois sua história é boa o suficiente para se auto sustentar.