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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Cavernas de Aço - Isaac Asimov

"- O que é a Bíblia?
Por um momento, Baley ficou surpreso, e depois ficou surpreso consigo mesmo por ter ficado surpreso. Ele sabia que os Siderais viviam sob a influência de uma filosofia pessoal mecanista, e R. Daneel só poderia saber o que sabiam os Siderais, nada além disso.
 - É o livro sagrado para mais ou mesmo metade da população da Terra -  ele respondeu secamente.
- Não compreendo o significado do adjetivo nesse caso.
- Quero dizer que é respeitado. Várias partes dele, quando interpretado de forma apropriado, contém um código da conduta que muitos homens consideram adequado à felicidade suprema do ser humano.
R. Daneel parecia refletir sobre isso.
- Esse código foi incorporado às suas leis?
- infelizmente não. O código não presta à obrigatoriedade legal. Ele deve ser obedecido de maneira espontânea pelo indivíduo por vontade de fazê-lo. De certa forma, é maior do que qualquer lei pode chegar a ser.
- Maior que a lei? Isso não é uma contradição em termos?
Baley sorriu ironicamente.
- Devo citar uma parte da bíblia para você? Teria curiosidade ouvir?
- Por favor.
(...)
- O que é adultério?
- Isso não importa. Era um crime e, na época, a punição aceita era o apedrejamento,isto é, jogavam-se pedras na culpada até que morresse.
- E a mulher era culpada?
- Era.
- Então por que não foi apedrejada?
- Nenhum dos acusadores sentiu que poderia fazer isso depois da declaração de Jesus. A intenção da história é mostrar que há algo ainda maior que a justiça que foi incorporada aos seus circuitos. Há um impulso humano conhecido como misericórdia, um ato humano conhecido como perdão.
- Não estou familiarizado com essas palavras, parceiro Elijah.
- Eu sei - murmurou Bailey - Eu sei."
Pág 236-238

Isaac Asimov é um dos três grandes consolidadores da FC na literatura moderna, juntamente com Arthur C. Clarke e Robert A. Heinlein. Hoje ele é conhecido especificamente pelas "Três Leis da Robótica", que foram incorporadas com plenitude em toda a cultura pop, e apesar de Asimov ter uma vasta obra (463 livros em vida... uau!) e contribuir para o desenvolvimento de outros universos importantes como o Império Galático, e a Fundação, podemos dizer que as preocupações com as formas de vida artificiais foram a grande médula de sua obra. Desde o início, em 1950, com Eu, robô, depois em várias coletâneas de contos que marcaram sua trajetória como escritor, e dentro dessa divagações a tetralogia Robôs, são os romances mais incisivos dentro da obra do escritor, cujo o começo é Cavernas de Aço.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O escolhido foi você

"Talvez eu tivesse calculado mal o que restava da minha vida. Talvez não fosse troco miúdo. Ou quem sabe a coisa toda fosse troco miúdo do começo ao fim — muitos, muitos pequenos momentos, cada feriado, cada Dia dos Namorados, cada ano insuportavelmente repetitivo e ainda assim de alguma maneira sempre novo. A gente nunca pode comprar alguma coisa com ele, nunca pode contar com ele para algo mais valioso ou mais completo. Eram só todos aqueles dias, mantidos juntos apenas pela memória frágil de uma pessoa — ou, se tivermos sorte, de duas. E por causa disso, dessa falta de significado ou de valor inerente, era admirável. Como a mais intrincada e radical obra de arte, o tipo de arte que eu estava sempre tentando fazer. Aquilo se atrevia a não significar nada e com isso exigia tudo da gente."

Durante uma crise criativa, enquanto fazia o roteiro de seu segundo filme, O Futuro, Miranda July teve um desses momentos de procrastinação que resultam em ideias geniais que, claro, não se relacionam em nada com aquilo que você realmente deveria fazer.

Ao folhear o jornal PennySaver, um tabloide que tem anúncios de vendas de tudo que você possa imaginar, ela começou a imaginar quem eram essas pessoas que queriam se desfazer de uma jaqueta de couro, de Ursinhos Carinhosos, ou ainda girinos. Passou, então, a marcar entrevistas com essas pessoas, na esperança que aquilo pudesse se transformar em alguma coisa. E se transformou. Não só no livro, mas foi parte importante na criação de seu roteiro.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Espananews S03 #11


Prêmio Jabuti
Foram divulgados na semana passada os vencedores do Prêmio Jabuti. Em cada categoria, são  anunciados os três primeiros lugares. O primeiro colocado ganha R$ 3.500,00 (o segundo e o terceiro ganham apenas a estatueta) e algumas das categorias vão para a segunda votação. Nela, há apenas duas divisões: Livro de ficção do ano e Livro de não ficção do ano. A premiação será dia 18 de novembro e o grande vencedor das duas categorias ganhará R$ 35.000,00.


Este ano o Jabuti teve de novo um "problema" com um dos jurados. Na categoria contos e crônicas, ele deu nota mínima para os cinco autores mais conhecidos da lista. Mas isso acabou não afetando tanto na classificação final, pois depois do jurado C, em 2002, a nota mínima é 8. [Para quem não lembra do caso do jurado C, ele deu nota zero para livros que concorriam na categoria romance]

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

[Colaboradora] The Star Wars Cookbook

Por: Danusa Penna
Gerações se influenciaram pela saga Star Wars. George Lucas, depois de ler O Poder do Mito, de Joseph Campbell, onde é traçado o caminho do herói, resolveu retratar o livro em três partes e apenas fazer a primeira versão. Um filme de ficção era algo muito avançado para 1977, e Star Wars foi negado pela Warner e a Universal. A saga seria barrada também pela Fox se não fosse Alan Ladd Jr., chefe de recursos criativos da empresa. Lucas também conseguiu os direitos para as sequências. Com 8 milhões na mão e muito vontade de trabalhar, George começou um trabalho exaustivo. Também criou seu próprio estúdio: a ILM - Industrial Light And Magic.

Durante as filmagens aconteceram todos os problemas possíveis: estúdio descontente com o elenco, tempestades de areia na Tunísia, atrasos, calor insuportável, cenários e figurinos que não funcionavam direito... O orçamento estourou e a Fox, no fundo, achava tudo uma bobagem.



quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Os Ignorantes - Relato de duas iniciações - Étienne Davodeau


Difícil de imaginar duas profissões que possam ser mais diferentes do que um autor de quadrinhos e vinicultor. O que mais chama atenção num primeiro momento é essa diferença de universos. E foi justamente esse estranhamento que me fez ler a HQ Os Ignorantes - Relato de duas iniciações, do francês Étienne Davodeau, lançada aqui pela WMF Martins Fontes.

Por  mais de um ano Étienne trabalhou no vinhedo de Richard Leroy. E o vinicultor, por sua vez, se comprometeu a ler todos os quadrinhos indicados especialmente a ele.

Durante toda a HQ é exatamente isso que acontece. Eles cuidam do vinhedo, bebem vinhos e falam sobre quadrinhos.
Mas se engana quem pensa que essa aparente simplicidade diminui o valor da HQ. Pelo contrário. Cada etapa do cultivo da uva, ou leitura de HQ, são vistos de uma forma tão curiosa que chega a ser cativante.

Antes de começar a falar mais sobre a história, preciso confessar que não entendo absolutamente nada de vinhos. Dito isso, todas as vezes que acompanhava os ensinamentos de Richard, me sentia um pouco como o autor, tentando entender os mistérios que cercam a produção de um vinho. Porque Richard parece não se enquadrar muito no esquema padrão na produção dos vinhos da região de Anjou (nesse espaço deveria ter uma definição técnica sobre essa diferença, que fica muito mais fácil de entender lendo o livro), e não classifica os seus vinhos do modo mais convencional. Na verdade ele parece meio um rebelde frente às normas tão rígidas de produção. É bem divertido ver ele vociferando contra algumas regras desse mundo dos vinhos.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Espananews S03 #10

Frankfurt mais política
A feira de Frankfurt acabou no último domingo e foi marcada por conversas mais políticas em relação ao futuro do mercado editorial.

O principal tema discutido foi a Amazon. Escritores alemães já tinham manifestado a insatisfação em relação aos boicotes que a gigante do e-comerce faz a editoras que não aceitam seus acordos comerciais (que geralmente pedem descontos muito acima da margem de lucro das editoras). Mesas debateram o tema e a ideia é que durante a feira esta campanha contra a Amazon ganhasse mais adeptos.

Durante a feira, dois textos falam bastante sobre o tema e valem a leitura: na Folha de S.Paulo, Roberta Campassi fala sobre os protestos contra a Amazon e outros temas de mercado discutidos (clique aqui); e Maria Fernanda Rodrigues, do Estado de S.Paulo, fala sobre o Frankfurt Undercover, um local onde autores se reuniam todas as manhãs para discutir e "recarregar as baterias" (clique aqui).

Paulo Coelho na contra mão
Ausente na comitiva brasileira do ano passado, Paulo Coelho esteve na feira deste ano, e com direito a um bate-papo. O autor falou para um auditório lotado, a convite da organização, sobre o futuro da leitura.

Coelho aproveitou a ocasião para fazer algumas críticas. Principalmente em relação às políticas de divulgação da literatura nacional, principalmente as traduções (em 2013 foram 70 e em 2014 apenas 4).

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Espananews Especial: Nobel 2014

Foi anunciada na manhã desta quinta-feira o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, o mais importante do gênero. O ganhador é o francês Patrick Modiano, de 69 anos.

Segundo a Academia Sueca, o autor foi escolhido porque em seus trabalhos apresentam "a arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inapreensíveis e jogou luz sobre a vida durante a ocupação". Modiano nasceu na França, em 1945, filho de pai judeu e de uma atriz belga.

Seu livro mais conhecido é La place de l'étoile (sem tradução no país), publicado em 1968, e fala justamente sobre a ocupação nazista na França e da perda de identidade, temáticas bem recorrentes em sua obra.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Espananews S03 #9

Feira de Frankfurt
Dia 8 de outubro (quarta-feira) começa a Feira de Frankfurt, a mais importante do mercado editorial. Editoras do mundo inteiro se reúnem e muitas tendências e best-sellers do ano que vem serão negociados por lá. Uma diferença muito grande entre outras feiras do gênero (principalmente as que acontecem no Brasil), é que ela só é aberta ao público no final de semana (dias 11 e 12 de outubro). Nos outros dias, só quem está relacionado ao mercado livreiro pode entrar.

Todos anos a feira tem um país homenageado, que tem um espaço de destaque no pavilhão, além de palestras e mesas com autores. Este ano a Finlândia poderá apresentar sua literatura ao mundo.

Ano passado, o homenageado foi o Brasil. E, claro, teve muita polêmica. Pra começar, com a escolha dos autores que iriam compor a delegação. Paulo Coelho estava entre os autores confirmados, mas pouco antes cancelou, alegando que a escolha dos autores teve mais nepotismo do que preocupação em mostrar a diversidade dos autores nacionais (escrevemos mais sobre isso aqui).

Depois teve o discurso de abertura do autor Luiz Ruffato, que foi um tanto polêmico, e o discurso improvisado do vice-presidente do Brasil, Michel Temmer, que tentava consertar as coisas, mas a emenda ficou bem pior (falamos sobre isso aqui)... Menezes estava por lá e conta o que viu pelos corredores da feira e os comentários que ouviu (link aqui). Nosso garoto prodígio também visitou a feira em 2011 e fez um relato aqui.

Menor representação este ano
A ideia do Brasil ser o homenageado na Feira do ano passado era aumentar a participação de editoras e autores no país e fortalecer a literatura nacional no mercado estrangeiro. Mas infelizmente não é bem isso que veremos este ano.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

[Colaboradora] Cozinha da Sensibilidade e Bom Senso

Por: Danusa Penna

“Concordo inteiramente consigo: é muito mais prático. Convide-o para jantar, Emma. Sirva-lhe peixe e frango do melhor, mas deixe-o a escolher a esposa que entender. Pode ter certeza que um homem de vinte e seis ou vinte e sete anos sabe perfeitamente governa-se sozinho.” 
Emma
Jane Austen é a autora que trouxe modernidade para a escrita inglesa do século XIX. Nascida em 16 de dezembro de 1775, em Hampshire, na Inglaterra, filha do reverendo George Austen e de Cassandra Austen, foi a segunda mulher dentre sete irmãos. Aos 17 anos, escreve seu primeiro romance, Lady Susan. Em 1797, Jane escreve dois romances Razão e Sensibilidade (primeiramente chamado de Elinor and Marianne) e Orgulho e Preconceito (originalmente First Impressions). O reverendo tenta publicar os livros com um amigo editor e a obra é negada, só sendo publicadas em 1811 e 1813, tendo como sua assinatura “uma senhora”. 

A escritora sempre teve uma fina ironia e um bom retrato da época que também podem ser vistos nos livros:Emma, Mansfield Park e A abadia de Northanger. O que se sabe é que embora suas obras sejam autobiograficas e nunca tenha se casado, Jane teve namorados. Chegou a aceitar um pedido de casamento e fugiu em seguida. Morreu em 18 de julho de 1817, aos 42 anos, vítima do mal de Addison. Deixou inacabado o romance Sanditon.

Buscando o clima dos livros retratados por uma autora tão singular, fizemos um creme doce bem saboroso. Recomendo colocar menos fava de baunilha no seu creme. Para entrarmos no clima inglês, pegamos o livro português A Cozinha da Sensibilidade e Bom Senso de Ana da Costa Cabral, a mesma autora do também maravilhoso A Cozinha do Senhor dos Anéis (que já postado aqui). 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Espananews S03 #8

Barão de Munchausen em nova edição
Uma nova edição para as aventuras de Barão de Munchausen será lançada este ano, como aposta de Natal.

Para quem não conhece, o Barão de Munchausen ficou famoso ao contar histórias absurdas, que ele afirmava serem verdadeiras, de suas aventuras durante a campanha militar dos russos contra os turcos. Essas histórias foram ouvidas pelo bibliotecário Rudolf Erich Raspe e publicadas pela primeira vez em 1785.

Só que a partir da publicação, as histórias do Barão correram a Europa e várias autores acrescentaram mais aventuras aos 17 capítulos iniciais. 

A última versão em vida de Raspe foi publicado em 1793 já contava com 17 novos capítulos, somando assim 34 capítulos no total. 

E essa edição, inédita em português, que a Cosac Naify lança em novembro em uma edição de Capa dura com mais de 40 ilustrações de Rafael Coutinho no formato 23 x 33 cm.

Abaixo, algumas ilustrações já divulgadas (a primeira é divulgada pela primeira vez aqui no blog): 


Imagem publicada na coluna Painel de Letras

Imagem postada no instagram do @telionavega

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Anthony Browne redescoberto

Muitas vezes aqui no blog ficamos muito impressionados com o poder da ilustração de uma obra, desde seu minimalismo com Aperte Aqui, de Hervé Tullet, às construções complexas de um Lacombe ou Rebecca Dautrémer. Contudo umas das experiências mais interessantes de minha vida como leitor foi redescobrir a literatura infantil não como uma coleção de personagens e histórias engraçadinhas, mas como instrumento de mensagens mais complexas e instigantes.

Um fato que passa despercebido quando temos 6 anos e andamos inocentemente com a Chapeuzinho Vermelho pela floresta, mas se torna primordial quando já adultos nos deparamos como uma obra que tem uma mensagem tão clara à ausência paterna quando Bernardo encerra sua história com a inocente frase: “Mas eu não sou o Bernardo, eu sou um monstro.”, em Agora não, Bernardo, o livro que decididamente abriu meu olho em relação as múltiplas camadas de interpretação que um texto infantil pode ter.

A partir daí seria um pulo para chegar na poética de um Flicts ou a tristeza/dureza que a vida representa na obra-prima Fico à Espera, e que Enamorados da Rebecca Dautrémer me ganhe pela vivaz intersecção entre a poética do texto e a beleza do traço, ainda são os pequenos textos que representam uma secura no estômago que mais admiro. E essa é a obra de Anthony Browne, autor inglês na ativa desde o final dos anos 70, finalmente redescoberto pela Jorge Zahar.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Espananews: indicados ao Jabuti

Foram anunciados ontem, dia 23de setembro, os finalistas do Prêmio Jabuti. Os resultados serão anunciados no dia 18 de novembro no Auditório Ibirapuera.

Este ano são 27 categorias. O ganhador de cada uma delas recebe, além do troféu, R$ 3.500,00 e entrarão na votação de Livro de Ficção do Ano e Livro de Não Ficção do Ano. Nesta segunda fase, o grande vencedor de cada categoria recebe o prêmio de R$ 35.000,00.

A curadoria desta edição ficou por conta da professora Marisa Lajolo e o prêmio tenta se afastar das polêmicas dos anos anteriores (quem não lembra do "jurado C"? Falamos dele aqui e aqui). Mas já existem reclamações, como o fato de livros de quadrinhos entrarem apenas na categoria "Ilustração" (aliás, ainda não ter uma categoria para quadrinhos ainda nos parece um grande erro).

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O que amar quer dizer - Mathieu Lindon

"Finalmente havia visto minha calamitosa adolescência infinita chegar ao fim para mergulhar na vida, compreendera que os seres humanos compartilhavam o mesmo planeta e tinham, assim, um certo grau de acessibilidade, que é simplesmente a felicidade era possível, e, de repente, é como se essa descoberta, ultrapassada, já não tivesse importância alguma. Daqui para a frente é preciso esperar menos da existência. Eu achava que havia atingido algo eterno, e esse eterno se esquivara. Eu achava que era a vida e era a juventude."
Página 154


O livro O que amar quer dizer é uma homenagem do autor, Mathieu Lindon ao filósofo Michel Foucault.

Mas não se deixe enganar por essa primeira frase. A intenção de quem escreve isso é tentar conquistar você, leitor da maneira mais rápida possível e também apelando um pouco, é bom dizer. Não que essa frase não seja verdadeira, pelo contrário. Mas é que ainda que esse seja o fator mais importante do livro - e o autor deixa isso bem claro em um destaque na 4ª capa do livro: "Eu tinha vinte e três anos e ele me educou... Michel me ensinou com uma discrição tão absoluta que eu nem me dava conta daquilo que aprendia. A ser feliz, vivo. E me ensinou gratidão)" - ele não faz jus à sensibilidade e à honestidade de O que amar quer dizer.

Talvez já tenha capturado a atenção de algumas pessoas, então é melhor usar argumentos razoáveis e explicar porque esse foi uma das minhas melhores leituras de 2014.

Mathieu Lindon é filho de Jérôme Lindon, lendário editor e criador das Éditions de Minuit, e desde sua infância, convivia com escritores e intelectuais como Samuel Beckett, Giles Deleuze, Alain Robbe-Grillet, Pierre Bourdieu, Marguerite Duras, entre outros. Mathieu decide ser escritor, mas passa por uma adolescência insegura e, quando chega aos 20 anos, tem uma relação complicada com o pai, conservador sem muito tato com o filho (uma outra geração, mais antiga).

Nesse contexto, por intermédio de um amigo, ele conhece Michel Foucault. Esse encontro vai mudar pra sempre a vida de Mathieu. Na época, Focualt já era mundialmente conhecido. Durante seis anos a casa dele na rue de Vaugirard foi o ponto de encontro para Mathieu e um grupo de jovens que buscavam novas experiências e boa parte delas vieram através do LSD, sexo, música clássica, filmes e amizade.

Existia um espírito libertário entre eles, uma urgência em vivenciar todo aquele tempo da forma mais intensa possível. Um tempo de trocas, de experiências inesquecíveis, anos definitivamente decisivos (infelizmente os anos 80 não foram bons com todos).

Em algum momento, Mathieu diz que a única forma de homenagear mesmo alguém é escrevendo um livro sobre a pessoa e por isso ele escreveu sobre Michel. E a presença dele é forte, mas sinceramente você não precisa conhecer nada da obra de Foucault. Basta saber quem foi Foucault e um pouco da sua importância. Esse é um livro sobre gratidão, amizade, sobre amar.

A generosidade de Michel é tocante, e mesmo com uma diferença de mais de 25 anos de diferença entre eles, existe uma harmonia e é com Michel que Mathieu aprende a entender a relação com o próprio pai.

Essa polaridade entre a figura de Michel e Jérôme é muito singular, Mathieu consegue entender o pai através dos olhos de Michel.

Ainda que seja um livro de 'memórias', ele é narrado com o ritmo de romance e as páginas passam sem você perceber.

Na introdução do livro o autor já te conquista. O livro começa de uma forma simples e arrebatadora. A primeira parte do livro que passa pela adolescência e os tempos na rue de Vaugirard, de drogas e descobertas é meio repetitivo, mas não se alonga muito. A parte final ele narra já sua vida sem Michel.

O que amar quer dizer é um desses livros raros, preciosos que te conquistam pela sensibilidade. É um livro sobre a juventude, sobre a vida. 

Ps. A capa do livro é uma foto dos frequentadores da rue de Vaugirard, Marc com o próprio autor no sofá do espaçoso apartamento de Michel.

Ps. 2 - Mathieu esteve presente na FLIP desse ano e foi uma das sensações de Paraty.

O que amar quer dizer
Mathieu Lindon
Tradução Marília Garcia
Editora Cosac Naify
288 páginas