E-mail

ATENÇÃO! NOSSO E-MAIL MUDOU!!! PARA ENTRAR EM CONTATO, ESCREVA PARA: espanadores@gmail.com



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Outro lado da sombra - Mariana Portella

"Pensei no mar e fechei os olhos. Sofia não falou mais, a fumaça no quarto tornou-se mais densa e o cheiro de canela, mais forte e penetrante, O sofá me puxava para baixo e quase conseguia sentir o rumor do mar dentro de uma concha. Uma manhã de sol incerto, o mar agitado e eu sozinho em uma praia onde a areia era escura e grudenta. Quando caminhava sentia enfiar-se  sob as unhas e formar uma segunda pele sob os pés. O mar lançava-se com violência sobre a orla, que a cada onda perdia terreno e se encurtava mais. À minha volta, ninguém. Nem mesmo um caranguejo, um seixo, nenhum ser vivo. Ouvi gritos vindos do meio das ondas, não parecia longe, embora não desse para ver ninguém. Assim como estava, sem mesmo tirar a roupa, começava a entrar na água, coma primeira onda me engolfando. A maré não estava alta e conseguia caminhar, apesar do jeans aumentar o atrito e dificultar meu passo. O vulto que pedia socorro tornava-se mais nítido, e a sua voz eu não podia deixar de reconhecer: era meu irmão. As perna começaram a mover-se mais velozmente, e o passo mais ágil. E no entanto continuava sem ver ninguém, mas a voz parecia estar ali bem diante de mim. Atrás, ninguém. A margem agora estava distante e a água chegava-me até os ombros. Gritei: "Carlo é você? Não o vejo, Carlo, onde você está?" Ele me respondia: "Estou aqui não me abandone, estou me afogando! Soren, me ajude, me dê a sua mão!"

Carlo não estava ali! Poderia jurar. A aflição de ouvi-lo e não poder ajudá-lo empurrava-me além, com os braços para a frente comecei a nadar com a cabeça alta, tentando encontrá-lo."
pág 136

A beleza e tristeza de alguns trechos deste romance de estreia da carioca Mariana Portella tem uma força pouca vezes vista numa primeira incursão à arte da ficção. Podemos visualizar o sentimento palpável da melancolia, seja no confronto do eu de maneira direta, seja em cenas oníricas que permeiam o romance do começo ao fim. Dito isso, Portella parece Lewis Hamilton em começo de carreira, pois para consolidar seus belos trechos e movimentos, há uma barbeiragem que quase põe tudo a perder e entre altos e baixos vamos caminhando sob a perspectiva de Soren, o narrador, na busca de nosso eu interior.

Mas não fiquem tão chocados, caros leitores, pois ser comparada a Hamilton, um dos melhores pilotos da geração pós-Schumacher é algo bom, e creio que devemos ficar de olho nesta autora intrigante. O outro lado da sombra me atraiu com suas promessas de leitura densa ao adentrar no mundo de um jovem melancólico em viagem à Dublin, que deve ser um dos lugares mais legais da terra, na minha imaginação. Pouco sabemos dos motivos da viagem e quem é o protagonista, mas em poucas linhas já sentimos uma geladeira nas costas do mesmo e esse é o principal atributo da prosa de Portela, que quando se limita a olhar com microscópio para os sentimentos do protagonista nos faz, enquanto leitores, ter uma bad-trip, não no sentido de ser muito pesada, mas em criar um atmosfera de desconforto do personagem com a vida que vive.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Um sábado na Bienal do Livro de São Paulo

 (este post leva o selo Molejão de Cilada)

Sábado fomos até a Bienal Internacional do Livro de SP. A ideia era encontrar alguns amigos, dar uma olhada nas editoras e distribuidoras em busca de um desconto bacana e, se possível, ver a palestra com os ilustradores Odilon Moraes, Fernando Vilela e Roger Melo, às 16:30, além de descobrir o que mudou nesta Bienal. Só que a realidade foi bem diferente da que imaginamos.

Chegamos por volta das 10 horas da manhã, quando o portão estava sendo aberto. Tentamos vir com o transporte oficial saindo do metrô Tiête e a fila estava gigantesca. A espera era de no mínimo 1 hora embaixo do sol. Conseguimos chegar e na parte de fora do Anhembi existia algum fenômeno estranho muito típico de SP: uma fila que não levava a lugar algum. Na verdade, essa fila (que dava duas voltas em si mesma) era só pra chegar na entrada do pavilhão. A fila continuava nesta entrada e você percebia que ela não ia a bilheteria e muito menos para entrada (para quem já tinha o ingresso).

Quando você passava esse primeiro obstáculo e chegava aos portões, a aventura começava. Teoricamente existem três tipos de entrada: credenciamento de professores/profissionais do livro, credenciamento de imprensa e entrada com o ingresso (cujo o valor era maior no fim de semana). Só que no final das contas eram portas diferentes para a mesma entrada em um portão pequeno e com todas as pessoas se empurrando. Junte a essa cena, o grito de adolescentes histéricos gritando por Cassandra Clare (que devia estar longe dessa entrada tumultuada).

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Espananews Especial: Bienal do Livro de São Paulo 2014


A Bienal do livro começa no próximo dia 22 de agosto e vai até o dia 31 no Pavilhão de Exposições do Anhembi. Aqui n'O Espanador vamos comentar um pouco sobre a programação do evento mais importante para o universo dos livros. 

Aqui no blog já falamos sobre alguns dos principais problemas da Bienal de SP (na última edição teve até um diário - parte 1 e parte 2 -  de quem trabalhou na Bienal) e é sempre interessante perceber que as coisas não parecem ter mudado tanto assim. Uma das principais questões continua sendo os objetivos e a forma como a organização vai lidar com a demanda do público e também do mercado.

A discussão é muito mais complexa do que isso e não vão faltar oportunidades para abordarmos essas questões aqui n'O Espanador. 

Diferente da edição de 2012, serão nove dias e não dez de evento. E como sempre acontece, a edição deste ano tenta de alguma forma superar o público do ano passado, que foi de 750 mil pessoas e foram inscritos 480 expositores (entre nacionais e internacionais).

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

[TIROLEITE] The dream is over?

Por: Bruno Leite
“A propósito, há muitos aspectos sombrios na aventura dos anos 1960 do que a maioria das pessoas reconhece – e não estou me referindo apenas às vítimas de drogas, à ruína política e à violência do período. Havia também um desejo de explorar o arriscado terreno psíquico, uma percepção de que as melhores esperanças podem também custar perdas terríveis”.
Ponto Final – Mikal Gilmore
Pg. 86

Certo dia, perguntaram a uma amiga minha o porquê gostávamos tanto dos Beatles, ao que ela, num inusual lampejo de genialidade disse: Somos jovens e precisamos de ídolos, não?

Era e é isso.

Ou, complementando o raciocínio com uma frase do Lennon “quanto mais dor se sente, de mais deuses se precisa”.  Esse é um post sobre eles, os meus – os nossos deuses e sobre a(s) morte(s) dele(s).



terça-feira, 19 de agosto de 2014

Barreira - Amilcar Bettega Barbosa

"Como em uma conversa pelo Skype, de repente tudo fica muito próximo, e uma noite maldormida sobre a poltrona que não reclina grande coisa, sem saber onde enfiar as pernas e embalado pelo rumor constante das turbinas, é suficiente para te jogar no outro lado da história, com poucas horas sob a luz fria e sempre imutável temperatura dessas verdadeiras bolhas artificiais que são os saguões dos aeroportos, toda a tua dificuldade para dar o primeiro passo em direção ao que até bem pouco julgavas distante demais te parece de um ridículo extremo, já tudo tem outro aspecto a partir do momento em que deixas a tua cidade, desde as pessoas, o jeito de elas se vestirem ou andarem ou de se dirigirem a alguém, até as lojas, os cafés e os produtos vendidos nessas lojas e cafés, tudo tem outra cara e outra cor, mesmo que essa cara e essa cor não possam ser mais insípidas do que são sempre as caras e as cores em um grande aeroporto internacional como este de Paris por onde tu vagas ainda meio insone e sem saber o que fazer para matar o tempo até a partida do próximo voo para Istambul porque perdeste a conexão quase imediata que a vendedora da agência de viagens em Porto Alegre exaltava como a grande vantagem do itinerário que ela compusera para ti (...) por enquanto és obrigado a te contentares com a observação do que se passa à tua volta enquanto esperas, e a pensares no que te espera nessa tua volta a Istambul após uma ausência que se não fosse Fátima insistir tanto ainda se estenderia por muito tempo sem que sequer te soprasse o espírito  ideia de um dia tentares encontrar a outra ponta do teu passado em vez de passares todo o tempo tentando negá-lo e, assim fazendo, afirmá-lo cada vez mais, pela recusa, pelo desprezo ou por esta fuga que fizeste durar até o último momento, quando então acabaste cedendo ao apelo de tua filha (...)"
Página 20-21

Quando foi lançada, a Coleção Amores Expressos causou uma certa polêmica. Para quem ainda não conhece, a coleção tem uma ideia interessante: 16 autores foram convidados a passar um mês nas principais capitais do mundo. E a partir dessa experiência escrever um livro (conto ou romance, pelo menos até agora).

A polêmica sobre o projeto começou em 2007 quando o produtor Rodrigo Teixeira, criador do "Amores Expressos" (com o apoio do escritor João Paulo Cuenca) tentou conseguir recursos via Lei Rouanet para bancar a coleção, orçada em R$ 1,2 milhão.

Muitos escritores se enfureceram pela possibilidade do financiamento público para o projeto, tanto pela temática quanto o critério da escolha dos autores (a acusação era terem privilegiados amigos de Teixeira e Cuenca).

Teixeira desistiu das leis do incentivo e financiou o projeto (reduzido a R$560 mil) e ficou com o direito de adaptar os romances para o cinema. E o acordo estimava para cada livro ficaria pronto 1 ano após a viagem. Mas é claro que não dá pra apressar os livros dessa forma e o processo da escrita de alguns desses livros 'encomendados' demoraram um pouco mais que o normal e alguns casos nem chegaram a sair.
Pra saber mais sobre o caso, clique aqui.

sábado, 16 de agosto de 2014

Bidu - Caminhos

Conhecemos as histórias de Bidu e sua turma procurando ossos e conversando com a Dona Pedra, ou com o bonachão e amalucado Bugu... Mas como ele conheceu esses personagens? Como ele foi adotado por Franjinha? Bidu - Caminhos mostra justamente o antes dessa história.

Impossível não se lembrar do lindo e emocionante Turma da Mônica - Laços (também da coleção Graphic MSP) com a ideia geral do quadrinho produzido pela dupla Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho. Mas os caminhos (sem trocadilho com o título do quadrinho, por favor) que os autores tomam são originais e resultam em mais um belo acerto desta coleção.

Como dito, acima, Bidu - Caminhos, narra a história desse cachorrinho que perambula pelas ruas, sonhando em ter um lugar onde possa dormir confortavelmente, tenha muitos ossos e carinhos. E por outro lado, mostra um garotinho inventivo que insiste com a mãe que quer um cãozinho. Mas não qualquer um...

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

[Drops] Finn’s Hotel – James Joyce

finn's hotel
Quem tem medo do Joyce mal? Joyce mal? Joyce mal...

Na verdade, apesar de ser um fã do trabalho do escritor irlandês, como muitos sabem, até eu tenho medo do Joyce mal de Finnegans Wake, aquele que me fez desistir de um livro por estar entendendo absolutamente nada, ao mesmo tempo que ficava espantado com a genialidade das construções aglutinantes e justapostas que fazia com a língua inglesa. E obviamente isso só era possível de perceber pois a correta edição da Ateliê trazia o texto original do lado. Ainda assim, para um estudante de Letras que tinha só uma hora de lazer para ler o que queria, ou menos. Atualmente eu até penso em encarar o romance novamente, em especial depois de passar com alguma tranquilidade por Finn’s Hotel, um texto perdido do escritor que finalmente chega em língua portuguesa.

Finn’s é como uma introdução à Finnegans Wake, escrito pouco tempo depois de Ulisses e anos antes de começar o Work in progress de Finnegans Wake e já apresentava em trechos o H.C. Earwicker, personagem que será um dos pilares da onírica construção de Finnegans.... Aqui também com mais força, se vê a construção sintática de Joyce e suas palavras com múltiplos significados se ampliarem, em justaposições, aglutinações, palavras estrangeiras, pornográficas em meio a barrocas, ressinificação de histórias mitológicas (aqui, Tristão e Isolda) e todo o tipo de criação estilista que o caracterizaria em sua obra posterior:

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Espananews S03 #5

Bidu na Graphic MSP
O primeiro exemplar da segunda safra da Graphic MSP teve seu lançamento adiantado. Segundo o Twitter de Sidney Gusman (editor da coleção), Bidu - Caminhos tinha lançamento previsto para a Bienal (que começa dia 22 de agosto), mas a Panini já começou a sua distribuição. Gusman acredita que o livro já começa a ser vendido no dia 14 (quinta-feira).

Bidu - Caminhos é da dupla Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho, que fizeram o álbum independente Achados e Perdidos. O próximo lançamento da Graphic MSP é a continuação do Astronauta (por Danilo Beyruth) e está previsto para o final do ano (talvez na Comicon Experience)

Bakunin está entre nós (ou quase isso)
Durante os protestos contra a Copa no Rio de Janeiro, um ativista inusitado apareceu nos inquéritos policiais: o filósofo anarquista russo Mikhail Bakunin. A notícia, além de virar piada nas redes sociais, aumentou a procura de livros do autor, morto em 1876.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

[Post do colaborador] O réu e o rei - minha história com Roberto Carlos, em detalhes

Por: Ivan Ricardo
"Tudo o que Roberto Carlos viveu, sentiu e sofreu, ele dividiu com os fãs ao longo de seus cinquenta anos de carreira. 'Se alguém quer conhecer o meu pai ou saber o que pensa ou já pensou, é só ouvir suas músicas', diz seu filho Dudu Braga. De fato, e essa exposição pública de sua vida íntima, pessoal e familiar, com seus dramas e superstições, é justamente um dos fatores que contribuem para o grande e perene sucesso do cantor. Os fãs o reconhecem como alguém muito próximo, como se fosse um amigo ou parente. (p. 245)

"Entre ser escancarado como Tim Maia e reservado como João Gilberto ou Chico Buarque, vai uma grande distância, e no meio-termo dessa escala gradativa situo Roberto Carlos. Só um estagiário de jornal acreditaria que o autor de 'Lady Laura' seria um exemplo maior de artista reservado. Após ficar viúvo e se tornar sexagenário, o cantor passou a levar uma vida mais discreta, mas sua obra musical não é nem nunca foi assim. Nos discos e no palco, Roberto Carlos sempre dividiu com o público seus dramas, alegrias, dores e amores. Por isso não é possível falar da música de Roberto Carlos sem abordar sua vida pessoal; elas estão entrelaçadas." (p.247)

Imagine uma criança que ainda não completou 4 anos e, de repente, andando ao lado da mãe pelo centro de uma cidade qualquer, na época de Natal, cheia de imagens de Papai Noel em todas as vitrines, ouvir alguém cantar bem alto a frase: Quero que vá tudo pro inferno! Foi o que aconteceu em 1965 com o historiador e jornalista, Paulo César de Araújo, em Vitória da Conquista, interior da Bahia.

O primeiro impacto daquela cena para o menino Paulo César foi a imagem do inferno ser algo bem menos ameaçadora por causa do vínculo com a figura bonachona de Papai Noel. Outra consequência, menos óbvia, foi ele se tornar um fã incondicional da pessoa que gritava a plenos pulmões aquela frase provocativa de rebeldia, Roberto Carlos - o maior cantor e compositor da música brasileira em todos os tempos, um verdadeiro fenômeno não só de discos vendidos e de número de fãs na história da música brasileira como também em todo o mundo, o que lhe valeu o epíteto de "Rei". A partir daquele momento, sem que nenhum deles - o fã e o ídolo - soubessem, seus caminhos estariam ligados para sempre. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

[Post da Colaboradora] Cozinha para dois

Por: Danusa Penna
Carol Thomé e Duca Mendes são um casal  film maker, que moram em uma casa sem fogão, porém, com um forno convencional e um micro-ondas. E sofrem com a dificuldade de arrumar receitas práticas para quem não sabe cozinhar, para jovens casados ou solteiros. Aliás, sofriam... A ideia de Carol, que é uma gourmet, e de Duca, mais desencanado, foi fazer bons lanches rápidos, com poucos ingredientes, mas muitos saborosos.

As dicas de Carol para quem não tem fogão são engenhosas. Quer ter uma noção do que seja? Nas receitas que vão molho branco, ela, na maioria das vezes, substitui por creme de leite fresco ou cream cheese, o que é uma grande descoberta. O livro caiu como uma luva para nossos amigos Espanadores! Por isso, eu e Vanessa, que somos “francesas” desde pequeninhas, resolvemos fazer um Croque Monsieur adaptado para o forno para você que quase não tem tempo de entrar na cozinhar. Ficou muito bom e recomendamos muito!

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Sangue dos Elfos, O – Andrzej Sapkowski

sangue dos elfos
"Eles matam seres humanos, porque os homens… alguns homens causam-lhes danos. Porque, muito tempo atrás, isto aqui foi o país de vocês, anões, elfos, seres anânicos, gnomos e outros… E agora, quem está aqui são seres humanos. Diante disso, os elfos…

- Os elfos – bufou Yarpen – Para sermos precisos, os elfos são tão estrangeiros quanto os humanos, embora tenham chegado aqui em suas naves brancas mais de mil anos antes de vocês. Agora vem com esse papo de amizade, de sermos todos irmãos, vivem sorrindo e dizendo: “nós, parentes”, "nós, o Povo Antigo”. Mas, antes, put…hum, hum… antes, suas setas silvavam junto de nossos ouvidos, quando…
- Quer dizer que os anões foram os primeiros do mundo?
- Gnomos, se queremos continuar sendo precisos e se estamos falando dessa parte do mundo. Porque o mundo é extremamente grande Ciri.
- Sei disso, vi um mapa…
- Você não pode ter visto. Ninguém ainda desenhou esse mapa e duvido que venha desenhá-lo em breve. Ninguém sabe o que há lá, atrás dos Montes Flamejantes e do Grande Mar. Nem mesmo os elfos, que vivem se gabando que sabem tudo. Pois eu lhe digo que eles não sabem de merda alguma.
- Hmmm… Mas agora… há muito mais humanos do que vocês.
- Porque vocês se multiplicam como coelhos – O anão rangeu os dentes – Vocês não pensam em nada a não ser em trepar, sem escolher, sem se importar com quem, nem onde. Para sua mulheres, basta sentar sobre calças masculinas para que logo lhes cresça a barriga… Por que você ficou tão vermelha como um papoula? Você queria ou não compreender as coisas? Pois estou te dizendo a verdade nua e crua da história do mundo, governado por aquele que foi o mais eficaz em esmagar o crânio dos outros e mais rápido em inflar a barriga das fêmeas. E com vocês, humanos, é muito difícil competir quando se trata de assassinar e foder…
- Yarpen – falou Geralt friamente, aproximando-se deles montando em Plotka- Se não for muito incômodo, tenha a bondade de refrear as palavras. Quanto a você, Ciri, pare de brincar de cocheiro e vá se ocupar de Triss. Veja se ela acordou e se precisa de alguma coisa.
- Estou acordada a bastante tempo – disse a feiticeira com voz fraca – Mas não quis… interromper essa interessante conversa. Não os atrapalhe, Geralt. Eu gostaria… de saber mais sobre a influência da fornicação no desenvolvimento da sociedade."
pág 145-146

Terceiro volume oficial da saga de Geralt de Rivia é o primeiro romance efetivo da história. Se os livros anteriores eram contos que conseguiam ter uma continuidade, mas que ainda assim eram independentes o suficiente para serem lidos fora do contexto, esse é um romance que se centra em uma história muito simples para criar um pano de fundo complexo, e, ironicamente, seu capítulos são tão esparsos em termos de continuidade que poderiam ser também contos. Andrzej escreveu contos que têm uma sequência lógica para ser considerados romance, e um romance que tem a estrutura fechada em cada capítulo, que lembram contos. Estilisticamente pouca coisa muda em termos de estrutura.

Para quem tem uma certa resistência a contos, e pensa em começar direto pelo romance, tenho uma péssima notícia: Cair de cabeça na história de O Sangue dos Elfos pode ser muito penoso para quem não se familiarizou com os personagens. Apesar do autor utilizara a tática de introduzir uma nova personagem, Triss Merigold, para nos apresentar o mundo do Bruxo, há pouca introdução à história dos demais livros. Jaskier dá um resumo por meio de uma balada, Triss entra na fortaleza dos bruxo e explica algumas coisas, mas quem é Geralt, Ciri e Yenneffer podem ser indagações que percorram a leitura dos aventureiros de primeira viagem.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

[Post do Colaborador] Livro+Filme: O Homem Duplicado

Por Eliézer Rodrigues
14 de Julho. Enquanto toda a Paris se prepara para a comemoração da tomada da Bastille, deixo-me assustar com a multidão que toma as avenidas para ver o desfile militar ou para se ajeitar aos pés da torre e aguardar a tradicional queima de fogos. Percebo a minha pequenez e o desencaixe: coisas embutidas na condição sempre instável do estrangeiro. Ter toda essa gente, todas essas línguas, todas essas nações, todos tomando pra si um nacionalismo que não lhes é natural é algo que me inquieta, pois sei que naquele momento o indivíduo desaparece e o que sobra é somente o eu-coletivo da grande massa que quer festejar a França, independente de sua nacionalidade. Nesse momento, perde-se a especificidade. A identidade vem borrada, mesclada numa massa heterogênea, porém uniforme.

Nesse momento, pouco importa se sou homem, mulher, professor de história ou ator. Poderia ser tudo ou nada e a grande roda continuaria girando mesmo se eu fingisse ser alguma outra coisa. É difícil reconhecer a si mesmo na multidão quando não se sabe qual rosto procurar – e às vezes a gente não sabe, porque esquecemos quem somos. Quando Tertuliano Máximo Afonso percebeu aquele rosto idêntico ao seu num filme banal, decidiu descobrir quem era aquele ator de terceira que parecia dividir a sua identidade. Se já não fosse fardo o bastante descobrir e cuidar da própria identidade, ver duplicada a sua existência minava toda a sua concepção de vida. É por isso que todo o resto soa menos importante e a investigação sobre a existência dessa duplicata torna-se obsessão. Sua ex-esposa, ainda desolada, não recebe a atenção desejada para a reconciliação. Sua mãe, a quem visita regularmente nas férias, terá de aguardar um pouco mais a sua presença. Seu tempo e dinheiro são gastos com o excessivo aluguel de filmes na tentativa de descobrir mais sobre o seu duplo. É então que a busca pelo outro pode resultar na perda de si. Em O Homem duplicado, Saramago propõe um suspense que conduz mais perguntas do que respostas, que não só prende o leitor, mas também realiza a sua função primária: incomodar e convidar o leitor para a narrativa. É por isso que o narrador não apenas conta, mas conversa. É por isso que o Bom-Senso é materializado em personagem e tenta coagir os pensamentos de Tertuliano.  Mas como um romance carregado de entrelinhas e de abstrações, com aberturas tão bem construídas que se assemelham a túneis que cortam toda uma cidade, comporta-se quando é transportado para o cinema?

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Dostoievski-Trip – Vladímir Sorókin

dostoievski-trip
NATÁSCIA FILLÍPPOVNA (vai em direção à porta com pacote nas mãos,mas de repente para e olha o pacote)

Gânia, tive uma ideia. Quero recompensar você. Rogójin, ele se arrastaria até Vassilievski por três rublos?

ROGÓJIN
Claro que sim.

NATÁSCIA FILLÍPPOVNA
Então ouça bem, Gânia.Quero olhar a sua alma pela última vez. Faz três meses que você me atormenta, agora é a minha vez. Esta vendo esse pacote Aqui há cem mil. Agora mesmo vou jogá-lona lareira, no fogo! Logo que o fogo o envolver completamente, atire-se na lareira, mas sem as luvas, com as mãos nuas, e retire o pacote do fogo! Tire o pacote – e será seu! E eu vou admirar a sua alma por você se atirar no fogo para pegar o meu dinheiro! Se não fizer isso, tudo vai queimar! Não  deixo ninguém mais pegar! Meu dinheiro! É meu o dinheiro, Rogójin?

ROGÓJIN
É sim, meu bem! Seu, minha Rainha!

NATÁSCIA FILLÍPPOVNA
Então todos pra trás! Não atrapalhem! Liébedev, toque fogo!

LIÉBEDEV
Natáscia Fillíppovna eu não consigo.

Natáscia Fillíppovna  pega as tenazes da lareira, espalha o carvão e joga o pacote na lareira.

IPPOLIT
Seguem! Façam-na parar!

VÁRIA ÍVOLGUINA
Não, não, não! Corra, Gânia!

LIÉBEDEV
Mãezinha! Minha Rainha! Todo-poderosa! Cem mil! Cem mil! Ordene que me atire no fogo: me jogarei por inteiro, a minha cabeça grisalha lançarei as chamas! Uma mulher doente, aleijada, treze crianças – todos órfãos , meu pai enterrei na semana passada – morto de fome! (Lança-se em direção a lareira)

NATÁSCIA FILLÍPPOVNA (afastando-o com o pé)
Para trás! Gânia, porque está aí parado? 
Não se intimide! Vamos! é a sua felicidade!
Gânia olha atônito para o embrulho em chamas.
pág 34-35

A trip contida no título desta peça pós-moderna de Sorókin, é uma legítima viagem no tom da construção do drama, indo de uma farsa literária para uma encenação de O Idiota, à cenas surrealistas e monólogos profundos sobre a construção trágica de cada personagem. Em termos de estrutura essa é uma peça que apresenta uma forma legítima de pesadelo que deixa seu leitor imaginando as diferentes montagens imagéticas que a peça poderia receber. Isso pode ser bom, mas, na minha opinião, é ruim.

Podemos dizer que há algumas correntes de pensamento a respeito do teatro moderno, que assim como qualquer obra de arte pós-moderna é um mix de experiências minimalistas e outras grandiloquentes. Há quem prefira pensar na peça como uma conjunção de texto com encenação desde o momento 1, outros já veem que uma peça boa pode ser interpretada sem cenários, ou roupas, somente pelo ator e sua força de nos colocar seja na Roma antiga ou em Westeros. Eu sou mais tradicionalista e acredito que o texto sempre venha antes de qualquer coisa dentro do teatro. Nesse ponto, se tirarmos a imaginação das possíveis construções e nos concentrarmos somente no significante do texto de Sorókin… é uma boa ideia, mas não muito bem explorada.