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terça-feira, 22 de julho de 2014

Tudo o que sou

"Seu livro abre em minhas mãos neste trecho: 'A maioria das pessoas não tem imaginação. Se pudessem imaginar o sofrimento alheio, não fariam os outros sofrer tanto'.
Era nisso que todos nós acreditávamos. Era nisso que ele acreditava, imagino, até não conseguir mais fazê-lo.
Imaginar a vida de outra pessoa é um ato de compaixão tão sagrado quanto qualquer outro. Nós redigíamos os panfletos, mimeografávamos a verdade. Contávamos as história em papel de embrulhar manteiga, em caixas de charuto, enviávamos isso clandestinamente para a Alemanha. Arriscamos nossa vida para ajudar nossos compatriotas - da Alemanha e de Londres - a imaginar. Eles não imaginaram. Mas Toller, por mais notável que fosse, estava errado. Não é que as pessoas não tinham imaginação. A questão é que elas pararam de usá-la. Porque uma vez que você imaginou tal sofrimento, como é capaz de ainda assim não fazer nada?"
pg 409

Quando Hitler chegou ao cargo de chanceler alemão, em 1933, uma onda de perseguição foi iniciada. Ainda não era o famigerado holocausto, mas já era a raiz do que aconteceria anos depois, já com campos de trabalhos forçados e execuções. Os alvos eram opositores políticos, membros de partidos comunistas e intelectuais. Nesse período, muitos foram expatriados, outros tantos fugiram antes que a polícia do partido nacional socialista os prendessem.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

[Leituras Compartilhadas] 1 ano!

Por: Rafael Kalebe
Há um ano começamos um dos projetos mais gratificantes d'O Espanador: o [Leituras Compartilhada]. Nem nos meus melhores sonhos eu imaginava que a experiência do Clube de Leitura fosse ser tão especial.

Cada uma das leituras consegue trazer algo novo, um pensamento, um argumento, e esse exercício foi o que mais aprendi. A leitura é uma coisa pessoal e que pode mudar pra cada pessoa. Ainda que esse seja o normal, o Clube de Leitura permite compartilhar as impressões e, mais do que isso, expande muito mais a experiência da leitura. E como se isso não fosse o suficiente, ainda conhecemos pessoas que tornaram isso tudo ainda melhor.

Como este mês fizemos uma parada estratégica, já convidamos todos os leitores para o encontro de agosto, que promete ser incrível:



sexta-feira, 18 de julho de 2014

[TIROLEITE] O Bom Brasileiro

Por: Bruno Leite
Se outrora eu afirmei que Philip Roth era "como se fosse um tio mais velho, sábio e solitário, sempre a espreita e que sempre vai estender a mão", agora falo de se extremo oposto: do tio folgazão, aquele que saiu de casa pra correr o mundo e contar como era do lado de lá, aquele que descobriu o sentido da vida na simplicidade, no humor quase sempre cínico, no calor dos tristes trópicos. Falo dele: João Ubaldo Ribeiro.

João surgiu em minha trajetória literária em meados de 2005 quando li A Casa dos Budas Ditosos. Que achado! Me lembro de me sentir muito feliz por ter tão finalmente ter encontrado alguém debochado com a forma e as normas, com seus toques de gênio. E não me refiro apenas a potência sexual da narrativa que é mais que evidente, a graça dele reside no primeiro parágrafo do livro, lá na epígrafe que diz assim:

"No final do ano passado, depois que alguns jornais noticiaram que a editora responsável por esta publicação me havia encomendado um texto sobre o pecado da luxúria, os originais deste livro e o recorte da nota de um dos jornais em questão foram entregues por um desconhecido ao porteiro do edifício onde trabalho, acompanhados de um bilhete assinado pelas iniciais CLB. Informava que se trata de um relato verídico, no qual apenas a maior parte dos nomes das pessoas citadas foi mudada, e que sua autora é uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro. Autorizava que os publicasse como obra minha, embora preferisse que eu lhes revelasse a verdadeira origem. “Não por vaidade,”, escreveu ela, “pois até as iniciais abaixo podem ser falsas. Mas porque é irresistível deixar as pessoas sem saber no que acreditar.” Assim foi feito, e com justa razão, como o leitor haverá de constatar, após o exame deste depoimento espantoso."

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Fundo do céu, O – Rodrigo Fresán

fundo do céu
"Só resta eu, aqui, debaixo do céu.

Sob a diferença desse céu que poetas e religiosos insistem em pluralizar (os céus, dizem e recitam, românticos, perdidos), mas que, na verdade, é um só, indivisível.
Esse céu que está no céu e que cresce a partir do horizonte.
Esse lugar ao qual, quando éramos jovens em chamas, nos dirigíamos com a tranquilidade de quem sabia ser inalcançável, felizes porque tínhamos todo o tempo do mundo, sem suspeitar que – agora eu sei, agora eu sinto – é o horizonte que avança, sem pressa e sem parar, em nossa direção. O horizonte que vem desde o horizonte até finalmente nos alcançar e penetrar em nós, e, de repente, nos tornarmos o horizonte.
Na noite anterior, enquanto começava a escrever isso – quando? – vi na televisão uma entrevista com um escritor de livros infantis. Best-sellers sobre um garoto que viaja pelo tempo em sua bicicleta em busca da mãe. Ou algo assim. O homem respondia com o rosto oculto em sombras, porque afirmava que não gostaria que conhecessem seu rosto ou o identificassem pela rua. O que importava não era ele, e sim as histórias, insistia. E, em certo momento, falou algo que nunca esquecerei: “Escrevemos para vingar da realidade”.
Essas palavras me soaram afiadas, verdadeiras e até incontestáveis.
Mas não tenho certeza de que esse foi meu caso.
Comigo, a questão tinha mais a ver com o fato de escrever primeiro para só então poder me sentir mais ou menos real.
Mas acho que essa foi uma opção melhor.
Também não acho que que exista uma melhor que a outra.
Cada um -  Ezra, eu, Zack, qualquer outro – escreve por motivos muitos diferentes, unidos por um único impulso: não poderíamos parar de escrever e, quando não escrevemos, sentimos que estamos, sim, escrevendo, ou que deveríamos fazer isso.
Como um computador, nos confins do universo, cantando suas últimas palavras, que foram as suas primeiras palavras.
Como um androide que se desliga enquanto monologa sob a chuva acerca de tudo o que viu e ninguém verá.
(…)
Assim como eles se foram, em um passado futuro, eu gostaria de ir também.
Não é possível, é claro."
Pág 173-175

Ao terminar o recém lançado livro de Fresán, percebi que havia muito tempo que não navega tão fundo na fc/fantasia quanto nesse primeiro semestre de 2014, basta ver meus últimos posts e notar que há uma certa predisposição ao fantástico, seja em sua forma mais sólida, seja na alegórica. Há quem ache que o fantástico se resume a nomes esquisitos, universos mágicos e non-sense. Em alguns casos pode até ser isso, mas esse são os ruins. Quando vemos as intrigas políticas de um Martin, as alegorias humanas de Dick, a recém resenhada trama imaginativa de Xerxenesky, ou o surreal em estado bruto de Rubião, vemos que há muitas possibilidades dentro do fantástico e por mais que ficção científica e poesia sejam um casal improvável de se avistar na pista das letras, Fresán conseguiu o milagre de faze-los ficar junto e O fundo do céu é seu resultado. Não preciso dizer que é diferente de qualquer um dos citados acima.

terça-feira, 15 de julho de 2014

As Leis da Fronteira - Javier Cercas

"Na tarde que eu conheci o Zarco cheguei ao fliperama logo depois que o seu Tomàs abriu as portas, e comecei a jogar na minha máquina de pinball preferida, que era a do Rocky Balboa. Uma boa máquina: cinco bolas, bola extra depois de alguns poucos pontos e no final bonus points que ajudavam a gente a jogar a partida com facilidade. Fiquei jogando por um tempo no local vazio, mas logo um grupo de garotos entrou e foi até o autorama. Pouco depois entrou um casal. Eram um garoto e um garota que aparentavam ter mais de dezesseis anos e menos de dezenove anos, e minha primeira impressão ao vê-los foi que um vago ar de família os unia, mas pricipalemnete que eram dois charnegos da pesada do subúrbio, talvez dos quinquis. Seu Tomàs farejou a amaeaça quando eles passaram diante da vidraça. Ei, vocês aí, chamou, abrindo a porta do guichê. Aonde vão? Os dois pararam bruscamente. O que foi, chefe?, perguntou o garoto, levantando as mãos como quem se oferece para ser revistado; não estava sorrindo, mas parecia achar a situação divertida. Disse: A gente só quer jogar uma partida. Tudo bem? Seu Tomàs mediu-os de cima abaixo com um olhar desconfiado, e ao terminar o exame disse alguma coisa, alguma coisa que na hora eu não entendi; depois entendi: Não quero problemas. Quem causar problemas vai pra rua. Está claro? Claríssimo, disse o garoto, fazendo um gesto conciliador e baixando as mãos. Com a gente não se preocupe, chefe. Seu Tomàs pareceu mais ou menos satisfeito com a resposta, entrou outra vez no guichê e deve ter mergulhado de novo na revistinha de palavras cruzadas enquanto os dois entravam no fliperama.
-Eram eles.
-Sim: o rapaz era o Zarco; a garota era a Tere.
-A Tere era namorada do Zarco?
-Boa pergunta: se eu tivesse sabido a resposta a tempo, teria evitado muitos problemas; (...) e meu primeiro impulso foi deixar pra lá a máquina do Rocky Balboa e sair.
Fiquei."
Página 22-3

As 430 páginas do mais novo romance do espanhol Javier Cercas passam tão fluídas e tão rápidas que é até difícil de acreditar. As Leis da fronteira é um daqueles raros romances contemporâneos que parecem se preocupar em contar uma boa história e o faz de uma forma arrebatadora.

Já havia lido outro livro do autor, Velocidade da Luz e havia me impressionado como ele consegue 'prender' o leitor com um texto ágil e muito envolvente. Agora em seu novo livro acredito que ele consegue ampliar ainda mais essas sensações com uma história que parece ser banal, mas que deixa você pensando nela mesmo quando você deixa o livro de lado.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O livro proibido da CBF

Em tempos de comemoração pela emocionante vitória da Alemanha sobre a Argentina (já aviso que diferente de boa parte das pessoas nada tenho contra nossos Hermanos), na Final da Copa mais legal dos últimos tempos, aqui n'O Espanador ainda vamos falar de futebol. Dessa vez, de algo um pouco mais sério. Já é do conhecimento de todos a minha paixão por futebol (que boa parte do tempo passa longe da diversão da Copa e só quem acompanha o Brasileirão sabe do que eu estou falando). E até mesmo por isso vou falar de um livro importante mas que é proibido. Mas calma, antes disso vem uma outra coisa.

Para quem acompanhou a Copa 2014 com toda a certeza ficou chocado com a derrota/humilhação (7x1) que foi imposta pela Alemanha à seleção Brasileira. Claro, 7x1 é difícil de esquecer. Mas as derrotas fazem parte do jogo. Eu como Palmeirense achei que já tivesse visto de tudo no futebol e esse jogo veio pra provar que eu estava enganado. Não me interessa falar da derrota, isso posso deixar para especialistas da ESPN, do Trivela e do Impedimento. Mas por que esse jogo foi tão significativo para o futebol quanto o seu resultado?

sexta-feira, 11 de julho de 2014

[Drops] + Read along: S

Ano passado nosso amigo Menezes foi mais uma vez à Feira de Frankfurt (tem um texto bem bacana sobre isso aqui). Depois dessas viagens, os nossos encontros normalmente são povoados de "Você não sabe o que eles vão lançar!" E uma dessas novidades sensacionais era um livro totalmente amalucado, com autoria do J.J Abrams (e Doug Dorst), o S.

O livro, além de ter uma edição ultra caprichada, é intrigante. Trata-se de um volume de The ship of Theseus "esquecido" numa biblioteca. As páginas estão todas comentadas, um diálogo entre um homem e uma mulher. Mas não uma conversa amena, aleatória. Jennifer e Eric querem desvendar o segredo do autor V.M. Straka, um homem misterioso, recluso.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

F. – Antônio Xerxenesky


"Havia muito mais o que escrever sobre o filme, mas Michel recomendou que eu fosse sucinta. Cinéfilos possuem um a boa memória visual, eu não precisaria registrar todas as minhas impressões. Além do mais, é sempre bom esquecer certos detalhes, pois rever um grande filme sempre nos faz notar coisas que não percebemos na primeira vez. Olhei para aquela anotação sobre Teorema. Tinha sido minha primeira. Mas nela eu não tinha respondido a minha pergunta, a questão que reapareceria em minha mente recitada pela voz de Orson Wells, quando eu olhava um prédio de arquitetura diferente, quando eu visitava uma igreja, quando eu ouvia uma música, quando eu lia um poema, quando eu assistia a um filme. Pensei pensei em Teorema e lancei a caderneta: “Arte, sim”

A estrutura rígida micheliana logo foi se desintegrando e cedendo espaço para a curta fórmula wellesiana. Fui ao Louvre pela primeira vez (“é ofensivo pensar que você vai voltar aos Estados Unidos sem ter ido ao Louvre”, disse Antoine), gastei umas três horas percorrendo aqueles corredores que apreciam ter mais história que o meu país, observei alguns orientais se estapeando para fotografar a Mona Lisa, e registrei na caderneta: “Louvre. Arte. Mas que saco.” Subi ao apartamento de Antoine – acho que pela quarta vez – e foi a melhor de todas. Anotei a data em minha caderneta, coloquei uma estrelinha do lado e senti necessidade de acrescentar: “Arte, talvez, mas provavelmente não.” (…) A Noite dos Mortos Vivos, de George Romero. Arte. A Aventura, de Antonioni. Dormi – e nunca durmo em filmes. Não Arte. Como era verde meu Vale. Eca. Não Arte (…)The Hurting, do Tears for Fears. Arte. Pequena casa azul que encontrei no quatrième arrondissement, próximo ao Sena. Arte. O Quarto verde. Não arte. E chato, muito chato.Cléo das 5 às 7. Arte.
pág. 95-96

A enigmática capa em neon com a concisão de um título que a toma por inteira deixa o leitor intrigado com seu conteúdo (isso é bom). A orelha que fala de sensações, já dá uma interpretação romântica do conteúdo e não fala nada sobre o enredo, já te deixa com o pé atrás, pois parece ser um romance 8 ou 80 (isso é mal). A citação ao verso de "Giorgio by Moroder" do último disco do Daft Punk, é uma elegante presença da modernidade nesse romance que se passa nos anos 80, sem contar que a melhor música daquele Cd e isso é bom também. Mas pedir que o leitor veja os filmes de Orson Wells para entender as citações, ou pelo menos não se importe com fato de ter revelações sobre os filmes, inclusive os finais, pode ser considerado ruim, pois nenhuma obra deve usar outra como base. E todos esses pensamentos vem ao mesmo tempo antes de ler a primeira frase do romance. Isso é um teaser.

Na verdade, se você obedecer a ordem natural da cinefília e tiver como base Cidadão Kane já poderá ler com tranquilidade a obra desse jovem brasileiro que é munido de uma imaginação singular nessa geração. Fato é que você tem que ser um pouco cinéfilo, falo que nenhuma obra deveria ser baseada em outra a princípio, mas existem outras que são homenagens a uma determinada coisa e obviamente você apreciará mais se tiver algum tipo de relação com a coisa, no caso, o cinema em primeira instância. Isso porque muitas das referências utilizadas no romance, e esse é um de seus charmes, é teorizar nas entrelinhas considerações sobre a Sétima Arte. Assim, quando você a tem no seu leito conjugal e vê a narradora exaltando Teorema, e dormindo em A Aventura, a vontade é entrar o romance e parlar “Antonioni é mestre, bambina!”com direito a todo gestual característico. Felizmente isso são easter eggs que nós fazem sorrir, mas o romance não se prende nisso, pois sua história é boa o suficiente para se auto sustentar.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

TAG: Seleção literária

Em tempos de Copa do Mundo, a Michelle do blog Resumo da Ópera criou uma TAG incrível que mistura um pouco algumas ideias de futebol aplicadas a esse nosso mundo dos livros. Aqui vão as minhas respostas:



1. Goleiro
(Um autor que é seu porto-seguro, para onde você sabe que pode correr quando nada mais te anima a ler. Aquele que sempre te defende das leituras ruins.)
Neil Gaiman
Poderia ter pensado em vários autores da lista de favoritos, mas a minha escolha é aquele que eu mais tenho livros/Hq's (até a última contagem chegou a 19) e também o que eu mais li em toda a minha vida (passa dos 14). Coloquei o Gaiman nessa categoria, porque sempre penso nos seus livros e também porque é o autor que eu tenho mais vontade revisitar os livros (e enfim ler aqueles que estão parados na estante) e que eu tenho certeza que vão me salvar das leituras ruins.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

[Post da Colaboradora] O Livro dos Sanduíches

Por: Danusa Penna

Pensando no bem-estar d' Os Espanadores reviramos o baú, e encontramos um livro de 1988, O Livro dos sanduíches, de Celso Nucci, com várias receitas e ideias legais.

O sanduíche, foi criado em 1778, por John Montagu, o quarto conde de Sandwich, que tinha o hábito de comer carnes entre duas fatias de pão, durante as partidas de uístes, ancestral do brigde.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Todos nós adorávamos caubóis - Carol Bensimon

"De maneira que eu e Julia nos falamos de fato plea primeira vez em uma festa à fantasia. Ela estava vestida de Penélope Charmosa, eu de punk viciada em heroína. O traje incluía uma seringa sem ponta que eu carregava no bolso, a parte do êmbolo aparecendo. Na festa à fantasa do primeiro semestre da faculdade de comunicação, eu a econtrei na fila do bar, e sua simples presença naquele evento já foi o suficiente para me surpreender. Se me pedissem que escolhesse palavras que definissem Julia Ceratti em um cesto cheio delas, eu procuraria por comum ou séria ou dedicada. Ela era a menina que levantava a mão para perguntar a cinco minutos do final da aula.


E no entanto simplesmente aconteceu de começarmos a trocar impressões sobre aquele galpão cheio de gente, onde uma escola de samba de nome estranho costumava ensaiar, mas que agora fora invadido por estudantes universitários de classe média cada vez mais bebâdos, eufóricos e autocentrados. Alguns deles passariam a noite inteira tentando explicar aos outros do que diabos estavam vestidos. Por exemplo, aquela guria, o que é aquilo na cabeça dela? Julia ia rindo deliciosamente, ainda que às vezes seus olhos desviassem de mim, como se ela estivesse à procura de alguma coisa melhor para fazer. Quando chegou sua vez de ser atendida, tirou do bolso um dinheiro embolado. Quase não esperou pelo troco. Com a mesma mão que segurava a lata de cerveja, começou a abrir espaço entre as pessoas e avançou uns bons metros antes de se lembrar da minha presença e girar o corpo para trás. "Sempre quis falar contigo, Cora." Disse isso de uma forma categórica, sem nenhum interesse em possíveis respostas, então desapareceu."
Página 25


Cora estuda moda na França. Julia estuda em Montreal. Já não se falam há alguns anos. Combinam de se encontrar em Porto Alegre e fazer uma viagem de carro que planejaram há tempos (e mais parecia aquelas promessas que se perdem ao longo dos anos). Esse é um pequeno resumo de Todos Adorávamos caubóis, o novo livro de Carol Bensimon.


Cora e Julia resolvem partir nessa viagem ao interior do Rio Grande do Sul, sem planejamento e com uma regra: que nenhuma delas conheçam as cidades do caminho. 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

[TIROLEITE] Britpop pra inglês ler

Por: Bruno Leite
Os anos 90 foram legais por alguns poucos motivos, eis eles:
* Push pop;
* os shortinhos do bad boy;
* os disque amizade da vida



* todas as novelas do Benedito Ruy Barbosa e
* os mamíferos de pelúcia da Parmalat.

Porém, um dos momentos mais divertidos daquela época sem internet foi, sem sombra de dúvidas, o britpop. Britpop é um termo que designa especificamente o boom de bandas britânicas da década de 90 que varreram os charts do mundo inteiro com sua deliciosa dor de cotovelo, crítica social e sua inegável sonoridade retrô. Tem como uma coisa dessas dar errado? CREIO QUE NÃO! Mas muito que bem, como esse é um blog sobre livros, vamos aos danados: vou tentar relacionar álbuns de bandas elementares desse movimento maravilhoso com dicas do que houve de melhor nas prateleiras de novidades, desde a Waterstones até aquela livraria linda em Notting Hill, se lembram?


1994
Blur - Parklife
Louis de Bernierès - O Bandolim de Corelli

Se em 2014 comemoramos o aniversário de vinte anos (sim, vinte anos, estamos envelhecendo, mimimi, esquece e vem) comemoramos porque a crítica especializada considera o lançamento de Parklife o pontapé inicial do movimento. Lançado três semanas após o chocante suicídio de Kurt Cobain, esse disco viria de certa maneira redefinir os rumos da música na segunda metade da década. O disco é de uma sonoridade fluída, agradável e em dados momentos absurda e viajandona, mas é delicioso, não é datado e o principal - quando se quer fazer pop - É DIVERTIDO! Era o tipo de K7 que te fazia pensar depois do ~~cléck~~ final "Mas já acabou?" Entendem porque esse álbum é apenas elementar?

quarta-feira, 25 de junho de 2014

[Drops] - Mundo das Copas, O – Lycio Vellozo Ribas

mundo das copas
Depois de ver meu irmão, que não dá a mínima para o futebol, torcendo para os times e até mesmo aprendendo a jogar Fifa me convenço que os grandes eventos como um todo conseguem quebrar a rotina de nossos dias, e até mesmo despertar novos interesses nas pessoas. Ainda me lembro em 1994 da maioria dos jogos do Brasil e a incrível, e tensa, final com a Itália. Apesar da cena de Roberto Baggio chutando a bola para fora ter se tornado icônica, só mesmo quem estava na frente do tubo catódico chuviscado lembra que a emoção que sentiu ao ver a conquista. Creio que essa Copa e a final do Mundial contra o Milan, que rendeu o título ao São Paulo, foram as pedras fundamentais para minha formação futebolística.

Quem nunca leu as nossas descrições do lado direito do blog, pode se surpreender, mas eu e Kalebe somos dois entusiastas que acham imprescindível informar o gosto futebolístico na nossa descrição. O Kalebe aliás já havia falado de Entre os Vândalos brevemente e fez uma lista muito legal com alguns títulos específicos no Tirando Pó de Futebol, que é altamente recomendável. Eu poderia fazer outra… mas o fato é que os bons livros de futebol não mudaram. Na verdade, apesar de sermos o país do dito cujo, nossa literatura esportiva é bem fraca na minha opinião, ainda temos os textos de Nelson Rodrigues como referência e pouca coisa realmente nova, tanto é que minha surpresa esse ano foi ver reeditado novamente aquele que considero ser o melhor livro sobre o assunto: O mundo das Copas.